
“Eu carrego comigo as linhas de bronzeado de treino, é minha segunda pele. Não me sinto glorioso mas muito menos me envergonho, eu simplesmente as carrego, e com a chegada de dias mais quentes, começo uma nova camada. Um dia eu estava numa piscina e uma criança gritou para mim: ‘Tio, você esqueceu de sua bicicleta!’ É difícil se manter incógnito.” Paul Fornel
Os seus amigos, a sua família e os seus colegas de trabalho já pensam que você é estranho por essa sua estranha obsessão com o ciclismo, mas isso não evita que eles segurem o riso quando notam pela primeira vez que o bronzeado dos seus braços misteriosamente termina em seus punhos – a clássica linha de bronzeado das luvas de ciclismo. Será que eles suspeitam sobre as terríveis marcas que se escondem sob as mangas de sua camiseta?
Um ciclista em sua bicicleta é algo digno de admiração, como uma poesia em movimento. Remova a bicicleta da equação e o absurdo entra em cena. Nada deixa isso mais aparente do que o contraste dos braços e pernas bronzeados pelo sol com a alvura das áreas que se escondem embaixo da lycra. É tiro certo dizer que você é o tipo de pessoa que passa o verão sofrendo sobre a estrada e não relaxando sob o sol.
Recentemente vi a imagem de um ciclista amador cruzando a linha de chegada com o braço erguido num dos tradicionais gestos de vitória, e ao notar seus braços – completamente brancos – fiquei me questionando. Manguitos nos treinos talvez? Mas então eu olhei pra suas pernas, também completamente brancas e fiquei confuso. Como um ciclista – e um capaz de vencer uma prova – mantém a pele tão clara? Porque pedalar é expor seus corpo aos elementos naturais, e no verão isso significa uma coisa, ao sol. O peculiar bronzeado – da parte de cima do braço até o o punho e da metade da coxa até o calcanhar – é a marca indelével de um ciclista. É inevitável.
A experiência de assistir o pelotão do Tour de perto é algo maravilhoso, a velocidade, o esforço impresso nas faces, as bicicletas e vestimentas brilhando como novos. E depois de semanas passando pelas escaldantes estradas da França, a musculatura acaba por se definir e a pele acaba queimada num tom escuro de marrom. A cor é algo a ser merecido, mesmo nossas pálidas imitações conseguidas num verão ameno em pedaladas esporádicas, é algo do qual se deve ter orgulho.
Provavelmente é possível suavizar essas constrangedoras linhas puxando a bermuda do bretele para cima e enrolando as mangas de vez em quando, bronzeado artificial – uma saída mais extrema – pode ser mais eficiente. Mas não, nós não queremos suavizá-las, porque essas linhas não são constrangedoras, elas são uma declaração, uma aquisição através do esforço e não do descanso, elas são mais um pequeno, mas muito visível, sinal para o mundo do que significa ser um ciclista.
(Tradução livre do texto Racing Lines, encontrado no site In The Saddle)